sábado, 4 de dezembro de 2010

Frénésie



Congele-me
Faça isso explodir e derreter
Não pare
Por favor
Dança
Hipnotiza
Atrai
Envolve
Faça arder, doa a quem doer
Não se deixe controlar, abater
Mude de cor
Mude de pele
Force
Deixe tudo destruído
Tome conta
Com todo o tato
Cuide, cuidado



Imagem de: Paul Verlaine

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Avance de ré

Me perguntam o que sou.
A primeira resposta sai como um arfar cansado,
hesitando pelo que seguirá a resposta,
caso eu tenha que escolher um só lado.

Me afirmam o que são.
Primeiramente observo numa panorâmica que se aproxima lentamente.
De forma que quando vejo o olhar, já não creio no que diz ser.
Perco o interesse e volto o olhar para mim perguntando:
-E hoje, qual das minhas quero ser?!

Se precisasse decidir, me diria turista,
mas o que sobra em estranhamento deste lugar,
falta em desapego de onde eu queria estar.

Me disseram que o tempo dirá o que sou...
O tempo, como bom político que é,
Sempre vem com as mesmas promessas,
de que o futuro sempre tem as respostas.
Passando a bola e lavando as mãos...
O problema é que quando o futuro chega, vira presente.
O presente, nunca lembra o que o futuro iria mostrar.


Então nada mais tenho a dizer...
já que as respostas estão guardadas com o futuro...
este faz questão de se manter inalcansável.
Me contento com este nostálgico presente.
Máquina do tempo quebrada...
que só anda de ré...
em circuito fechado...
alta velocidade...

Vou lhe arguir sobre quem és.
Não me responda que o tempo dirá.
Já não creio nessas besteiras atemporais.
Só guardo o que vejo e o que sinto.
Todo o resto é perecível.
Bons tempos que não voltam mais...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ensaio II : Consciência como opção

O ego alheio é a única arma párea para o próprio ego.
Partindo deste princípio dá para perceber o quanto a dor é e não é humana.
A capacidade dela nos tornar animais -às vezes da forma mais primitiva- ou de fazer com que nos tornemos dóceis e afetuosos, é algo extremamente assustador.
Quantas vezes já ouvi pessoas abrindo a boca, para deixa escorregar o famoso clichê : "sou legal enquanto não pisam nos meus calos" ou aquele que diz: "Isso que passei mudou minha vida, virei uma pessoa melhor"...
Em suma, somos todos meros espelhos, sempre refletindo uma ação alheia, só há movimento proveniente de reações (externas) e não de reflexões(internas).
A terapia se torna mais um subterfúgio para culpar nossa criação por nossos erros. A culpa alheia é algo que alivia a própria consciência.
Lavamos as mãos após ler o jornal. Alguns desistiram e preferem nem se sujar.
Quanto mais tempo passa mais imundo fica este mundo que insistimos em chamar de lar.
Desculpas articuladas, criadas para manter no mesmo curso a nossa insólita e cada vez mais difícil rotina, são consequências da dificuldade de admitir, o quanto somos fracos por nosso egoísmo.
Como falhamos, quando o exercício da honestidade começa a ser algo intrínseco.
Honestidade não é qualidade, não é passível de recompensas, parabéns ou medalhas. Ela simplesmente é mais pesada quando ausente e infinitamente leve quando onipresente.
É desenvolvida, ou não.
Usada, ou não.
Aproveitada, ou não.
Criticada, ou não.
Ignorada, não.
É uma simples posse, quase um objeto, um acessório ou um artigo de luxo.
Se na teoria errar é humano. O humano seria um erro?
Me pergunto qual a margem de lucro, o custo benefício....mas evito especular. Tenho medo de ofertas tentadoras.
Quanto vale sua honestidade?

Ensaio I : Cegueira por opção

Tudo mentira.
Essa vontade, aquele futuro....
Toda intenção que hesita quando transita em direção a uma ação...outra mentira.
É só parar pra pensar, se olhar atento cada ato, verá uma nova atuação, que se atualiza a cada lugar e momento, que muda a cada sentimento, sempre baseado na publicidade que altera e cativa através de música e um conjunto de imagens.
A mentira que se torna verdade.
Datas esquecidas, dinheiro gasto, cheiro novo de carro, pilhas de papéis, livros abertos, o que escreve sobre si, a compania destes cigarros amassados, todo esse papo enrolado, o álcool derramado, o desdém forjado, aquele sorriso debochado...
Your tears, your fears...it's all a big lie.
Sonhando em ser mais, omitindo o fato de ser grão. Querendo ir longe, conhecer lugares novos porque não consegue parar de vagar por lugar nenhum, em círculos pela terra de ninguém...
Todo logro em que caímos, os equívocos no que dizemos, a fé que fabricamos, a esperança na qual nos apoiamos, é mero engano onde escolhemos viver.
A ignorância é a zona de conforto.
Precisamos consumir mais um pouco deste nada, mais colorido, novo, mais cheiroso, gostoso...mais agradável assim então, não?Não.
Assim são feitas as próprias cercas destes lindos lixos e o paraíso é aquele belo sonho que vive fora do eixo do real. No fim se torna mais uma grande falácia de algum novo idiota.
Não importa o que ouça, o que se diga, é apenas...
Tudo mentira.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Just in love



Eu andava me fazendo muitas interrogações?
Leonina em dobro, quando não recebia respostas saía por aí cheia de exclamações!
Mas depois de toda tempestade, vem a calmaria com suas reticências...
Como toda fonte que um dia se esgota, as ruas secaram e eu pude perceber o que estava muito difícil de ver.
Talvez o copo ainda estivesse meio cheio e com um sorriso de canto de boca entendi tudo.
O veneno na dose certa poderia ser a cura.
Finalmente pude sentir os raios de sol tocando meu rosto e ofuscando as nuvens que aos poucos iam dissolvendo.
Eu percebi que foi a primeira vista. O céu estava diferente.
Ele era puro e lindo, romântico, colorido, profundo e vivo.
E o céu nada mais tinha a me oferecer. Eu não poderia guardá-lo, não poderia tocá-lo.
Não podia nem morar nele, como desejava... Mas nada disso mudava o fato de que era especificamente aquele céu, que nasceu daquela forma, naquele dia, que me cativou.
Eu estava apaixonada pelo céu e nada mais poderia fazer, a não ser aproveitá-lo até o anoitecer e vê-lo partir.
Me deitei de frente pra ele e resolvi curtir até a última cor se apagar, admirando ele e o que ele me despertava.
Me deleitaria até o último raio e saborearia a sensação de uma paixão que nada poderia me dar, mas que eu ainda queria, só por ter me feito flutuar.
Sem medo, sem hesitar, sem exigir, sem reclamar, sem fingir ou cobrar. É a verdade e ponto.
Percebi que gostava tanto, que me bastava o fato de eu tê-lo visto, dele existir.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Guerra à guerra (sã)

Ontem, me gabava com ela
Como eu era dona de mim
E o quanto é curioso o destino
Pois a louca desvairada
finalmente havia sumido.

Mas o cá-te-espero é sacana
e seus absurdos só cochilam
porém nunca vão pra cama.

Ando por aí no random, mas sempre parece repete
A caneta falha, perco a velocidade do pensamento.
Quando finalmente a encontro
Esqueço sobre o que divagava, perco o momento.

Adianta o troco senhora!
Porque desta vez meu card de nada vale
No escuro e baixo perambulante
Só vai dar pra escrever mais tarde.

Sem me lamentar por pouca miséria
Ciente de que no abafado não dá pra pensar
Espero pela próxima ida ao Ártico
Aí sim eu começo a reclamar...

Banco traseiro, janela alta e exatamente duas horas
Pouco tempo picotado pra resolver
o que farei com a outra que habita em meu ser.

PUTA, FALTA DE SACANAGEM!
por isso a deixo presa e enjaulada
Gritando, me ensurdecendo...
Ensandecida, larga de ser encrenqueira!
Deixe minha paz, desista de meu joelho
Não tenho espaço pra negociar
Não me engano, SEI qual é seu único intento
Só pra medir forças chega pra bagunçar...

Então ata meus olhos e venda meus pulsos
...ou inverta, revertendo tudo.
Porque o bar abre os braços de terça à domingo
Já não ligo pra louca que se denuncia
Perdeu as rédeas, fechei a conta da terapia
E há muito que não há descanso no sétimo dia...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Escarlate

Resolveu se livrar do cadáver no armário. Já fazia tempo que insistia guardá-lo. Estava tão bem escondido que nem o notou. Mas o corpo que ali jazia, já começava a cheirar. Já não podia mais disfarçar, os vizinhos já estavam a notar sua mórbida devoção ao fúnebre, que era alimentada diariamente pelas constantes visitas póstumas que o defunto fazia, ao desaparecer pelas madrugadas. Ludibriando com palavras tão sem sentido quanto ocas, recriando algo que já não existia mais...Algo sobrenatural ainda a rondava, obsediava. Mãos gélidas, as costas arrepiavam. Abraços de sufoco, a morte respirava em seu pescoço. Onipresente da forma mais etérea, ocupava mais espaço que o ar em seus pulmões. Apartamento vazio, janela aberta ondulando as cortinas de linho. Seis garrafas do mais fino vinho. Um fantasma, dois silêncios, três delírios. Mais 30 comprimidos e outro suspiro...Um corpo sem vida, sem calor, que mesmo morto, só fazia doer. Agonizando em busca da misericórdia, deu-se a decisão que lhe pouparia desgostos. Alçou vôo de encontro aquelas luzes que brilhavam vermelhas, pelas coberturas inferiores...





























Sentiu gosto do vento frio no rosto. Sentiu o vácuo penetrando seu ser, subindo sua barriga, implodindo no peito relaxando seus os músculos...e riu de forma salaz...das consequências que não poderiam mais lhe pesar! Pela primeira e última vez, finalmente pôde mergulhar e repousar, com sua leveza peculiar e ambígua, sobre lençol quente e úmido, de sua cor preferida.


sábado, 7 de agosto de 2010

Grande espetáculo






Mais uma compania itinerante chegou à cidade!
Uma antiga arte esquecida
Uma prática politicamente incorreta
Tentando se equilibrar na corda bamba
Difícil anunciar, quem vai ter coragem de falar?
A voz sai por um fio, como um pio
Burburinhos de festa, grandes expectativas
Apenas umas palavras mal|ditas
no segundo errado, num tom mais forte
O suficiente para todo fogo sucumbir
Pro malabarista deixar tudo cair
Abalando a inacreditável frieza do contorcionista
Esfriando o vicioso o calor do palhaço
Assim o ilusionista insiste em ser mágico
Dividir ela em duas é próximo passo
Mal sabe ele que aprender a levitar
não é apenas um truque de escola
Mas guardem o segredo Mister M
Pois coelho fugiu da cartola
E correu atrasado para a toca
O bizarro que vira excentricidade
Serão loucos dias nessa cidade
Venham, venham, respeitável público
O show tem que continuar
A lona está apagada, mas o circo ta armado
Qual será a próxima ilusão?!
Entrarias na jaula deste leão?
Ousarias rir do seu nariz de pintado?
Quando irá começar aquele novo quadro???
Silêncio impera enquanto facas cortam o vento
Ela parece estar inteira, de longe ninguém vê
Cicatrizes e arranhões, um atirador vendado...
Saltimbancos e engolidores de fogo
Globo da morte está montado
Acelerando em círculos e barulho
Suspense, o rufar dos tambores
O acrobata vai saltar, vai voar
O grande público fecha os olhos
Temem vê-lo cair
Mas talvez a rede cumpra seu ofício
A mão do acrobata se estenderá para o alívio
Salvando-o baque que ninguém quer ouvir
E do silêncio dessa longa queda

















...e o show tem que continuar...



















 





VÁLIDO LEMBRAR!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A HOLE

Uma abertura
Uma diferença pequena em um passo entre dois tons musicais
Uma forma, dois ângulos, tão obtuso quanto sutil, dois significados completamente diferentes

O que penso, o que digo, o que acontece, o que me reservam, o que muda, o que...o que?








mecanismo que está sempre ao lado, de um lado, pro outro errado





 e





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 cega por todos os lados, desesperada por todos os cegos, cegando o que a luz não deixa ver










...e é a isso que tudo se resume...poço transbordando umidade, escorrendo ecos
Um buraco, um nada que ocupa tanto espaço, que pode explodir...












Não é nada.

que eu queira
que eu possa
que eu diga



segunda-feira, 28 de junho de 2010

Virtudes virtuais

Digo o que não falo pra esconder o que já está nu.


Toda comunicação há muito já transcendeu a barreira do falar. Informação chega na velocidade de um toque, na forma de olhar, na linguagem corporal...palavras hoje são apenas mera formalidade, necessidade própria do vício de sempre articular muito, para acabar sem dizer nada.
Ficou o dito pelo não dito.
Mas à partir de hoje não abrirei mais a boca, para não ficar cega pelo despudor que me leva a soltar o que deveria reprimir e a comprimir a vergonha que há de voltar.

Vejo surdos se comunicando de forma entusiasmada, como se por uma "deficiência" aprendessem a usar melhor o físico, a percepção e a expressão. Tão efusivo que chega a contagiar, a me chamar pra descobrir o que não dizem, o que cala em meio aos ruídos e as palavras pela met...
Todos os dias também vejo ouvintes, todos cegos e calados, mesmo que em compania. Tão perdidos dentro de si, enclausurados numa bolha, com fones e um livro.
Alheios, alienados e emparedados entre o medo e o ego, que erguem muros altos e densos, separando este universo do mundo da interação. Interagir mesmo é pegar o celular, é twittar e se mostrar presente pra quem não pode ver, quem não pode tocar.
Essa necessidade vem da distância do outro, do não estar sob um olhar que pode reprovar, do não se deixar julgar. Vício da preguiça em pequenos movimentos, gestos quase imperceptíveis, inexpressivos.
Toda a carga e energia que economizam em movimento, transbordam em palavras secas e pesadas, dispostas de forma sublime para que caiam sobre cabeças desavisadas e desabrigadas da couraça que protege os bem vividos e seus finos filtros.

Nem quem tem boca fala o que quer. Quem não tem face palpável costuma articular muito mais. Malditas ou benditas...virtudes virtuais.

Mas ainda sim tenho que admitir que minha bolha permanece bem à mão, para carregar no tom e levar as letras de quem gosta de falar, o que o bom senso e a conveniência insiste em assim manter.

Hipocrisia é a doença. O remédio é o xarope que faz minha voz surgir (sempre à venda nas melhores esquinas do ramo). O tomo religiosamente, sem ler a bula e com pouca moderação. Isso pode custar muito caro, mas eu não costumo deixar nada barato. Este é o preço que pago.
Para resolver a paranóia do implícito, apenas a terapia grupal e teatral, do segura e empurra, do se deixar cair, das conseqüências de um soltar desamparado, que o chão faz explodir de forma conclusiva e definitiva.

Ainda que sem chão, o importante é ter os fios para se comunicar, para esclarecer de todas as formas possíveis. Para a dúvida solidificar. Quero entender, me/lhe fazer ouvir/ver/sentir. Conectar...
Ainda que subtendido, preciso fechar de vez todos os canais para finalmente abrir um novo sentido.

O bom tom passou longe, será preciso ser muito mais underground para assustar. Irônico vir justo a quem já passeou pelo subterrâneo de um deserto isolado e visitou o silêncio das paredes escuras deste quarto gelado. O mergulho foi em pântanos mais nebulosos que o amanhecer hoje, a perdição era estar só em meio aquela multidão.
Não que isso queira dizer algo, quando na verdade nada é o que quero dizer. Mais do que comunicar o objetivo é soltar cada nó, da garganta aos dedos. É assim que se faz?

Tudo tem seu objetivo, olho em volta e vejo que o único é o de mascarar o próprio egoísmo, almejando o próprio alívio, vomitando o desgosto, simulando o próprio gozo.

Os vejo tentar, mas fica cada vez mais evidente a prepotência de quem se basta e mesmo perdido, precisa ser seguido para um dia se encontrar.

Esta bolha está pequena demais para nela ficar, estourou o limite que me separava dos demais e já não os vejo tão distorcidos e embaçados. Com todo esforço aguço meus sentidos e tento aprender a dizer sem que seja preciso letra alguma escrever.

Você que não me lê, olhe em volta, a música também vibra pra quem toca, pra sentir isso, não será preciso me ver.

Sem lugar comum, não dependeremos apenas de nosso rico vocabulário ou da métrica. Não sei, se realmente não sabe ou se realmente cabe tanto discurso pra quem ainda vive nos limites do próprio umbigo.

Acho que estamos nos comunicando, mesmo que nada tenha sido falado. Silencie a fim de ouvir a razão, para só depois começar a dizer algo.
De vuvuzela já basta a corneta.

Quanto ao resto, nada restou a falar...Concluí que nada foi dito e que lá fora nada se altera. O mundo das idéias é bem aqui e não há nenhum mal que nada saia daí. A voz foi perdida e a ligação restabelecida.

Assim, dia após dia, vamos nos entendo, vivendo aqui, acolá. Sempre repetindo ou contradizendo, já não importa.

A vida nos canta e nós continuamos a mesma dança, de quem gosta menos da lábia e mais do gosto.

Entendido?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Nitroglicerina

Numa fusão que transcende qualquer teoria física
Numa química que converte nossa energia de ligação em energia cinética
Causando uma onda de choque supersônica
Dá para entender isso? Exatamente...
Visões distintas que sem mais atritos chegam a mesma conclusão
Um gatilho foi apertado e não dá mais para voltar atrás
A entropia cada vez maior toma conta das escolhas, preenche cada aresta em mim, cada espaço entre nós, transbordando silêncios subtendidos e abraços calorosos
Palavras teimam em sair sem nenhum pudor, sentido ou métrica. Acabam se perdendo pelo caminho na longa distância percorrida entre o raciocínio e o olhar, ficam pela met...
Passeando por um lugar bem distante daqui, onde os muros são baixos e os pés descalços não oferecem nenhum risco, retornamos à infância.
O desejo de não voltar da Terra do Nunca, é onipresente em cada minuto, mesmo quando o despertador insiste em gritar.
Para me tirar daqui, será preciso virar tudo que está de ponta cabeça, será preciso deixar cair toda neve do globo e nem que me congelem novamente, esquecerei deste prelúdio de estação, deste início de inverno.
Formigas, façam seus estoques, fiquem reclusas em suas residências e amarradas à própria rotina.
Cigarras, continuem tocando, cantando na boemia, amarradas ao ego, reclusas em suas garrafas vazias.
Quanto a mim, fico feliz de não ser inseto e vou me divertindo assistindo a estas quadrilhas, que estão bem longe de se tornarem um número de dança.
Mudanças de tamanhos, cores, estados, externamente tudo permanece igual, pois descobri que o estado natural de tudo é o caos.
A mudança em mim assusta e extasia, mas nenhum terremoto importa mais, pode sacudir...
Estamos todos prontos, prestes a explodir.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma Maria à Rosa

Ela adormeceu casulo para amanhecer borboleta...
Alguém que viveu por bastante tempo, pra me ensinar muito com a simples serenidade na presença e que ainda me ensina pela falta que faz na ausência...
Trançava com delicadeza meus cabelos, com o mesmo cuidado e firmeza com que fazia em cada pedaço de sua vida, amarrando tudo com seu amor e uma tira de pano florida.
Seu sorriso brilhava mais que qualquer dente que poderia existir.Seus olhos, tão profundos quanto um poço, cavado dentro de um oceano de sabedoria.
Matriarca que nasceu num tempo em que a mulher não tinha voz. Mas ela era ouvida sem precisar gritar. Criou tanta cumplicidade, amadureceu destrinchando experiência e disseminando bondade.
Quanto gênio, que fortaleza, uma personalidade construída pela saudade do que ou de quem ficou pelo caminho.  "Eram tantos" - ela dizia - mas ainda sim seguia como podia.
Sempre forte nunca perdeu a sua fé na cura de qualquer mal.
Não descansou, porque na verdade nunca se cansou de agradecer por cada dia, cada gesto, de abençoar cada passo de suas crias.
Não exagerava em beijos, mas era só abraços, que precediam um colo capaz acalentar todas as inquietações do mundo, de nossos corações.
Não era uma maria,  era Maria Rosa, era "nossa mãe, nossa protetora, nossa guia, nossa defensora"...
Morar com ela era flor, festa e muitos "coração com coração é amor", que dizia a cada abraço forte.
A gratidão com que nos olhava a cada gesto de cuidado, era um décimo da gratidão que eu espero ter refletido em meus olhos. Agradeço por todos os dias que pude colocá-la pra dormir, em seus lençóis apertados, como um...
...casulo, que adormeceu,  para amanhecer borboleta...
Um centenário contando suas histórias, nos fazendo caminhar pelas veredas que passou, às vezes tristes, às vezes cômicas, deixou pra trás o corpo que já pesava n'alma...
Voa vó, voa, leva felicidade, mas ainda deixa tanta saudade...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Outono, doce nostalgia

"500 days of Sumer" ... Sweet!

Ontem seria comemoração...Beijos, abraços, presentes, mimos, bobagens, amassos e tempo, muito tempo presos dentro de nossos olhos, com poucos olhos para o resto do mundo...o mesmo tempo, que corre depressa com acontecimentos, sentimentos e tudo mais que era eterno e pereceu...
Mas hoje é dia de relembrar os arrepios, de ouvir the smiths e cantar alto, mesmo que não esteja acontecendo agora. Senti, vivi e bebi pequenas doses do elixir pra perceber que ainda é possível, fechar os olhos e novamente me perder dentro de mim, me encontrando em outro alguém.
"And if a ten-ton truck
kills the both of us 
to dye by your side
Well, the pleasure and the privilege is mine
Take me out tonight
Oh take me anywhere
I don't care, I don't care, I don't care..."
É sempre um prazer lembrar, é sempre um prazer esquecer a cautela -cicatriz- porque quando se tem coragem, a sorte é uma questão de tempo, é tentativa e erro. Assim sigo com meu incorrígível romantismo, fruto dos contos que lia antes de dormir.
Pra balancear, o meu lado fogo diz que, pra sempre, é apenas a fração de segundo entre o que eu penso e o que digo, entre o que deixa de ser segredo pra ser do mundo.O mundo por sua vez adora pegar o que é dele e virar de cabeça pra baixo, ainda que tudo se mantenha preso ao chão. Mas já não ligo pro chão onde piso, o importante é minha cabeça que voa longe. Vago entre passados e futuros, com minha saia rodada e farfalhante. Deve ser porque adoro doce, que me leva a ouvir esquilos tocando percussão de coco, que me deixam dançar no meio da avenida, na noite vazia.
Só agradeço, o infinito que pude sentir, só espero, o infinito voltar a mim.
Planejamos passionalmente, viver juntos, um dia após o outro, sem nos importar com o sereno e a gripe, só para que pudéssemos dormir juntos, mesmo que ao relento.
Olhos em chamas, paixão e ódio, dramas dignos de novelas mexicanas, que sempre terminavam em lágrimas enxutas em nosso lençol revirado. As ventanias de nossas portas batidas, a solidão de nossa, sempre breve, distância. Logo depois, mais promessas de "nunca mais", como um disco arranhado...até que em certo momento o vinil se partiu. Como doeu, mais ainda, ver que a outra metade nem percebeu que não tinha conserto. Talvez por isso a mágoa, o ressentimento. Todavia hoje eu preciso dizer, depois de 6 meses, que tive um presente ontem. Tirei o laço e dentro haviam muitos bons momentos. O que senti e aprendi foi eterno, a liberdade do primeiro amor de verdade, a capacidade de tomar as rédeas e surpreender, me antecipando à iniciativa alheia e dividindo de coração aberto uma decisão que era minha.
Nunca esperei que a vida me fosse ensinar a simlesmente desapegar de minha alma, dividindo-a com alguém tão cedo, de corpo inteiro. Hoje decidi o que fazer com o que ainda tenho. A picotei em vários pedaços, de diferentes tamanhos e formatos, para que ela pudesse viajar, ventando pela terra, se perdendo para um dia se encontrar e ser trazida pra mim, em doses homeopáticas, pois toda aquela ansiedade cessou.
Não sinto mais necessidade de ver gente a todo momento. Só as vejo porque gosto e quero. Não preciso mais me manter em movimento pra bicicleta não cair, não tenho mais medo dos pés descalços no chão, pois me vejo no balanço das folhas que caem neste fim de outono e na mudança das nuvens e marés.
Ainda que intensa, percebi que não preciso tanto dos choques e tempestades.
É possível me manter serena, talvez eternamente.
Então, que como tudo que conheço, isso seja eterno enquanto dure.
Definindo desta forma o ontem, o hoje e quem sabe o amanhã.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O que os olhos não vêem...

Perca seus dedos para que seus versos não mais me atordoem, atormentem!
Fure meus olhos para que eu não te reconheça!
Me envelheça como vinho para que a ressaca venha com o alzaimer ou apenas lembre-se do que eu pedi: Uma garrafa de diversão, com um extenso poema dentro, enviada de forma inteligente e diferente ao meu endereço, ao meu berço.
Nada pequeno, nada subtendido, quero algo grande, digno de ser lembrado e tragado num único gole seco. Nos pequenos frascos estão os piores perfumes, não me venha com mediocridade. Não me ofereça apenas um pedaço ou serás devorado por inteiro. Nem se aproxime, não vou lhe dizer meu nome, nem quero saber o seu.
Vá caçar em outro lugar, saia de meus terrenos, saia de mim.
Obsseção, pelo tempo já obsoleta.
A globalização cada vez mais alimenta a insanidade, mas quanto mais insanos ficam os habitantes desta selva, mais sinto fome...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

desCONSTRUINDO o filme DEGUSTAndo a poesia

O cinema é um eterno exercício do olhar, não que seja necessário você achar que tudo que é subjetivo é arte, nem que tudo tem que ser nos padrões plásticos da simetria. Cinema pede um olhar sempre aberto e livre, onde você se permite ser levado por um conjunto de sentidos e sentimentos que lhe são passados por algo que se aproxime e te toque, mesmo sendo algo tão distante da realidade (ou não, afinal algo pode tocar por ser bem próximo).
Não sou crítica de cinema, não sou artista, não sou poeta nem escritora. Acho que o bom da liberdade de expressão é sempre poder contar com a própria forma de interpretar e expressar como você vê o mundo.
Sei que gosto de algo que leve e eleve meus sentidos, de forma que me deixe bem longe de mim por algum tempo, mesmo que mínimo. Algo que me faça abrir novas janelas ou enxergar novos horizontes quando as luzes se acendem, algo que me mude, de forma boa ou ruim, que não me permita sair indiferente.Cinema pra mim é isso entre um mundo de coisas que eu não saberia explicar apenas pela escrita...

Porque toda essa introdução? Pra falar do filme que vi hoje, que pode gerar reações paradoxais.
Então um pequeno resumo das impressões passadas, quem quiser ou puder, assista e depois me diga com que olhos piscou após os créditos.






"Viajo porque preciso, volto porque te amo"
Deve ser porque a poesia é para todos. Se esvai de qualquer um, em qualquer situação. Mas a poesia é para poucos, a superfície é dura e as imagens desfocadas, não penetra qualquer um, nem é facilmente permeável, podendo assim dar em qualquer lugar.
Contraditóriamente belo, estranho aos olhos as lembranças de um coração. Lugar incomum em meio à aleatoriedade que acalma, alivia, distrai do olhar pra dentro, da incapacidade de encarar câmera, "que agonia" "Viajo porque preciso, não volto porque te amo".
Ciclos de estradas que mais parecem círculos de análises e aforismos "sempre iguais" alternando somente nas emoções que vagam entre a vontade de voltar e não ter caminho pra conseguir. Silêncio ensurdecedor, vazio que oprime. Que lugar melhor há para se esconder do que na multidão??
O ridículo distrai, mas de tão ridículo, atrai uma atenção desesperada de quem não tem pra onde se voltar. O bizarro que faz rir, alimenta e sacia a vontade de "uma vida de lazer" insustentável, mesmo que por pouco tempo.
Pé na estrada e uma câmera que muitos se enganam ao pensar que está em primeira pessoa. Quem filma não são os olhos, mas o pensamento que vai longe, o alter ego com quem ele dialoga em suas reflexões, quando o ridículo passa de fora para dentro e deixa de ser cômico para ser trágico. Quando isso acontece, quando ele cansa, tudo vira bobagem e as flores de plástico com gotas de orvalho artificial, representam o quanto é falso o que remói, a negação. Assim sendo falso, não existe. Ninguém precisa lidar ou encarar o que não é real, as flores são distração, escape.  
Vôa na insignificância da pipoca que estoura, do artesanato que relaxa, no sorriso tímido banguela, no mar que não existe.
É tudo repetição da mesma fuga comum, de evitar a dor até chegar no litoral, até que chegue o "final" e se perceba que já não pesa tanto o motivo inicial de sua viagem assim encerrando um percurso e iniciando uma jornada para encontrar uma nova rotina pra conviver consigo mesmo.
Por isso poesia é tudo e qualquer coisa, mesmo que seja nada, pois é a construção do desconjuntado, desconstruído, descontinuado e todos os DES...
Estranho às margens, intrínseco, profundamente tocante. Pensando assim tudo que toca, mesmo que oposto, pode virar algo belo pra quem está disposto a mergulhar em águas profundas.

O filme? Pra mim é pura poesia...







''O cinema é a verdadeira linguagem poética'' Bernardo Bertolucci

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Incoerente mudança

Oratio vultus animi est          x          Res, non verba
Evito as expectativas para sempre me dar a oportunidade de ficar surpresa, mas também não nego que tenha um inconsciente objetivo de driblar o logro inerente de minhas consequências.
Que seja parda essa semana, pra que o escuro não me dê a agonia de estar cega e que a luz intensa não me imponham vertigem e dor de cabeça.
Que seja ao som de Bach, para não ter que lidar com ensurdecedoras batidas de baquetas, nem com o silêncio inquietando minhas pernas.
E assim, que no dia ou na noite, se faça o sereno, me transformando num corpo pleno, nem menos nem demais, completo e inteiro sem nenhuma parte deixada para trás.
Faça do desejo gelado, suor derramado, transbordado escorrendo até a superfície lisa, que entre os dedos será enxugado.
Nem menta ou pimenta, só o gosto vazio, refrescante e ardido da origem de teus verbos não palavreados e suas histórias não proseadas que se libertam em textos não lidos.
NÃO LI, NÃO RESISTI, RELI E RELI...
Escritos reescritos, subscritos e descritos como se tivessem sido proferidos por mim, encaixando perfeitamente como se fosse mera extensão de minha mente.
Invasão de privacidade, altera minha identidade, transformando-me num pedaço de conto dissertado, artigo rebuscado, que eu não deveria ter lido, fazendo dos falsos encontros, mero acaso, da alma vazia, que é âmago de todas as angústias e sustento de sua poesia.
Por isso hoje quero passar bege, fora de minha natureza, imersa em minha essência mais amena.
SUBENTENDIDO
Mero pergaminho, deixo de lado todo nanquim ávido pra manchar futuros alvos, cuidando pra não derrubar o que restou no tinteiro.
SE ALGO RESTOU...
Desenrolada de forma efêmera, supostamente estirada, pronta pra ser descrita em garranchos apressados, cursivos e itálicos, delineada entre traços agudos e curvilíneos, ainda que de forma ultrapassada, num saboroso devaneio, outro jeito ardil de fabricar uma nova idealidade. Mesmo que breve, pedi um intervalo, voltando no compasso.
Posso viver nas palavras, na minha verdade ??????
Mas minha verdade muda mais que minhas palavras!!!!
Será um círculo perfeito e interminável a repetição dos atos ??????

Assim me transformo no escrito e logo lido me transforma
Não há outra forma de seguir a não ser sempre alterando-me de todas as formas

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mitológicamente real

Mitologia sempre me fascinou muito, não só pela beleza e riqueza de tramas que envolvem deuses, monstros e humanos em emaranhados de sonhos, amores e traições. O que mais me envolve na mitologia é o fato de que, com toda superstição e magia, as mazelas e desejos se aproximam muito da realidade humana e do cotidiano em que vivemos (com todas as suas adaptações).
Andei pensando um pouco em Ícaro, na verdade mais do que deveria!
Resumindo, a história tem muitas versões, mas a base é a mesma.
Dédalo (pai de Ícaro) construiu para o rei de Creta, Minos, um labirinto com o objetivo de aprisionar o Minotauro (Filho da esposa de Minos com um touro). Tempos depois Minos – que enviava condenados para serem mortos no labirinto – enviou o amor de sua filha, Teseu para a morte. Assinando a própria condenação, Dédalo ajudou o casal dando a idéia de Teseu levar um novelo de lã, para não se perder no caminho. Teseu derrotou o Minotauro. Resumo da ópera... Dédalo e Ícaro foram alvos da ira do rei, sendo os dois condenados a viver no labirinto que foi construído por suas própias mãos.
Para fugir de tão dura pena, Dédalo construiu asas de cera e plumas e ambos fugiram voando. Não ouvindo os conselhos de seu pai, Ícaro, extasiado pela liberdade e atraído pela energia e calor do sol, quis se aproximar e tocá-lo. Suas asas derreteram e ele caiu em direção ao Mar Egeu.
Porque Ícaro? Porque Ícaro é o símbolo da busca de um ideal perdido, do inalcançável. Divido com ele esse desejo de voar. Mas o desejo de voar ainda é muito comum até entre os prudentes. Incrível mesmo é como a natureza humana funciona, sendo capaz de construir a própria prisão. Mesmo após todo pesar superá-la e ainda sim cair no erro de se deixar seduzir pelo desafio, pela vontade que vem do que nos privamos ou do que nos é privado. O que não temos obviamente acaba nos parecendo mais brilhoso e fulgurante que a luz do sol. É em torno da ilusão do que não vimos, que sempre batemos.
Eternas mariposas se chocando contra a luz, permanecemos no desespero de encontrar algo, mesmo quando não enxergamos mais nada do jeito que realmente é.
Como Ícaro, certas vezes me vejo cega, movimento-me sem medo da exposição em direção ao perigo, fascinada por qualquer encanto, mesmo que aos poucos, ele se torne aos meus olhos menos esplendoroso. Meus olhos muitas vezes se acostumam à luz alheia. A admiração à esta luz, apesar de ser respeitada, não se mantém tão misteriosa e não me prende.
O problema é que meus olhos nem sempre se focam tempo suficiente, (falta de foco é uma fraqueza quase estrutural) para que eles se acostumem à estes atributos exóticos que são emanados em forma de calor e vibrações. Quando não há tempo de se acostumar, a magia etérea permanece como um tormento, fazendo com que a vontade de viver acima das nuvens seja tão forte que se torne angústia. O humor fica exposto aos caprichos de uma parábola, que me leva do chão à ascensão e da ascensão à queda.
Difícil levar essa inconstante vontade, quando minha única certeza é que, tudo que é surreal e sublime precede uma longa e agonizante queda no mar gelado. A sensação de afogamento é inquietante e apesar de não querer, fica inevitável a luta e o nado. Há uma chegada dura e cansativa a praia. A garganta seca pelo sal, arranhada pela areia. O enjoo e a vertigem culminando em um desmaio iminente. Quando tudo parece fim e nada espero de lugar algum. Aparece uma mão estendida para me levantar e sinto que estou bem.
O otimismo volta, o acolhimento, o calor inebria...
...
...
Calor...me lembro de um calor...outro talvez...mas ainda sim o mesmo. Aquele que leva ao gráfico, ziguezagueando batimentos até que tudo se torne rotina, mesmo que a minha rotina seja essa eterna propensão às - não tão inesperadas assim – surpresas e adversidades. Cada vôo um novo risco, ainda sim valendo cada queda (após ser superada). Pois um sucesso contínuo me levaria a uma embriaguez, enquanto o fracasso acaba despertando, estimulando e ensinando (mesmo que ainda sim seja difícil aprender.)
Como disse anteriormente, a mitologia se mistura com nosso mundo, por isso me fascina. Mas talvez seja o contrário. Quem sabe a mitologia seja baseada em nosso mundo, pois toda essa inconstância os inspira.
O que dizer...pode cair Ícaro, se for por ter tocado o sol...Se deixe cair.

sábado, 24 de abril de 2010

Máscara alva, imaculada e insustentável

Levantando a poeira que tentam varrer pra baixo do tapete, sujando os belos muros dos palácios da decência e da moral, assim como os lençóis pendurados no quintal de dona Maria - moradora de mais uma entre tantas comunidades do Rio - que está sujo de sangue e pólvora. É pra ser sujado mesmo, pois segundo o governo do estado, este quintal, esta casa, nem eram pra estar lá.

Dona Maria está em área de risco, ou em uma área de invasão da bela mata atlântica do Rio, responsável pela bela fama de paraíso verde em meio a àrea urbana. Dona Maria é dona de um terreno que pertence ao governo, que é reservada para apreciação dos nossos turistas, cheios de Euros e Dólares que entram nos caixas, cuecas e meias das autoridades.
Só quem não vê a cor nem os frutos deste dinheiro são as Maria’s e José’s que mesmo morando em locais irregulares pagam contas de luz, recebem cartas e alguns até pagam IPTU.
Para evitar essa expansão, há muros sendo construídos para cercar as comunidades e com a desculpa de “proteger” a floresta. A dignidade de quem está dentro do muro é a única que não é preservada. O projeto do que eu chamo de emparedamento das favelas vai começar pela zona sul. Seria coincidência?!
No que isso difere de outro muro, que foi construído em 13/08/61? Ambos separam dois blocos sociais. Respeitando nas devidas proporções, a influência na vida de cada parte separada e a gravidade da construção de cada muro, quando falo que essas duas paredes têm algo em comum, eu falo do sentido de todos os muros feitos, o simbolismo deles, a separação, a delimitação de território, o fato de que todo muro segrega ou esconde o que cerca, do que está em volta. Não se trata mais de proteção, mas da materialização da exclusão que já existe há muito tempo.
Longe de mim incentivar a ocupação irregular, mas de ver a raiz do problema, que está sendo resolvido de forma incorreta.
O que o governo se esforça tanto pra esconder gastando R$ 40 milhões (segundo a fonte, financiado pelo Fecan - Fundo Estadual de Conservação Ambiental)? Porque ao invés de financiar a “cerca das favelas”, eles não financiam um projeto de habitações, para que estas pessoas possam ser retiradas e readaptadas, num lugar digno e bem estruturado?
Com toda certeza construir paredes é bem mais barato, mas até onde é eficaz? No que isso resolve os problemas das famílias que moram lá? Alguns membros das comunidades dizem que não foram afetados com esta novidade. A maioria discorda e até protesta. Será que estão todos conscientes do que se trata simbolicamente essa mudança?!
Eu vejo muito interesse político, vejo olimpíadas e copa do mundo se aproximando, vejo casas pintadas de verde-água de um lado da favela e brancas do outro, vejo ações paliativas com a finalidade de tornar a cidade “apresentável” e “limpa”.
O objetivo é fazer da cidade uma parede branca, como um apartamento com a decoração clean, dessas que as imobiliárias e construtoras vendem como água ou cerveja, em todas as esquinas.(Falando nisso exploração imobiliária é um assunto que deve ser discutido, mas que dispensa comentários nesse post.)
Só com um desastre como este, que assolou nossas queridas “Cidade Sorriso” e "Cidade Maravilhosa", assim como o resto do estado do RJ, pra que a prefeitura acorde e veja o quanto é urgente parar de pintar a fachada das casas, parar de tapar o sol com a peneira e entender que ação em prol do desenvolvimento não é “minimizar o impacto visual” e sim minimizar o impacto do abismo social em que vivemos.
Vem a chuva e leva tudo, vem a imprensa e explora a desgraça de todos, vem os políticos (I)responsáveis lavando as próprias mãos com a água que ainda escorre de muitas casas e olhos.
Li um texto da Márcia Tiburi - pra quem nunca ouviu falar, ela é filósofa, artista (no sentido real da palavra) e escritora - e achei muito pertinente falar sobre o assunto que ela levantou.

Pichação
O que realmente as pessoas devem considerar desrespeito?Um muro pichado ou a falta de dignidade com que essas pessoas, mais humanas do que muita gente que cresceu com todo suporte necessário, vivem?
Como um protesto de quem não tem voz na mídia, não tem tela nem espaço (em todos os sentidos) pode ser julgado da forma que é?
Vemos a cidade cheia de grafites e piches, às vezes uns seguidos dos outros, alguns formando palavras, outros são desenhos, frases, reflexões e alguns são apenas assinaturas de quem só deseja dizer que está aqui entre nós, que existe.
São pessoas que se cansaram, que não querem, nem aceitam mais serem negligenciadas, que clamam por alguma atenção (Atenção merecida na minha opinião).
São os artistas que insistem em expor, sem luzes, galerias ou glamour. Sua inspiração é a vida, o que vêem e vivenciam por uma condição que lhes foi imposta.

Não vou falar da pichação em si, pois a Márcia Tiburi já fez isso lindamente no texto que coloquei abaixo. Quero falar de arte como um reflexo rebuscado e sincero da vida, quero expor o que penso, quero conseguir uma forma mais bela de traduzir o grito interno que dou todos os dias, quando passo na rua vendo indigentes, sinto que talvez assim minha vergonha me sirva de algo, fazendo com que um dos monstros que me assombram seja exorcizado, mesmo que por um momento.
Em que esses meninos que expõem em muros são diferentes de mim? Quase tudo.
O que temos em comum? A mesma necessidade de falar mesmo sem a certeza de realmente estar sendo ouvido.
Ações falam mais que palavras, entretanto, muitas vezes palavras se transformam ou inspiram ações. Daí vem a idéia de um filme sempre ser baseado em um roteiro previamente apresentado e não em uma cena filmada ou num pré-trailer.
Porque não querem ver e ouvir o que essas pessoas têm a dizer? Pra que essa necessidade de homogeneizar, rotular e marginalizar tudo que não está nos moldes padronizados pela sociedade?
Particularmente considero a sociedade em que vivo ainda muito atrasada, limitada, preconceituosa e alienada. É por conta dela que ouvimos e repetimos os termos dança de rua, arte de rua.
Deixo claro que falo em primeira pessoa do plural, me incluindo na lavagem cerebral dos padrões quadrados de uma educação clássica ou religiosamente rígida, que pode ter sido dada ou pela escola, ou pela mídia ou por pais.
Rotular tais movimentos artísticos como de rua, seriam apenas formas de diferenciar estilos ou uma tentativa de apartar o que é feito formalmente, do que é feito em grande parte pelas periferias que não tem acesso ao clássico, ao erudito? Dança não é mais dança, arte não é mais arte? Criança de rua também é criança, que nem a sua.
Manifestações em forma de música como o rap, em forma de dança como o hip hop ou em forma de arte, como o grafite, se resumem a sentimentos desmascarados.
Assim como os piches traduzem uma revolta. Fecharemos nossos olhos para mais esse grito silencioso? É feio, a realidade é feia e nós procuramos o tempo todo embelezá-la para sofrer menos, para se chocar menos. Será que estamos todos loucos? Precisamos deste choque mais do que nunca, para que possamos cobrar quem pode mudar algo.
Ano de eleições não serve apenas para reclamar que ninguém presta, que ninguém faz nada. O voto é nosso único poder sobre o destino do local onde moramos, sobre os impostos que pagamos em tudo que compramos, em nossa segurança e futuro. Votar nulo ou em branco é mais do que se abster, se alienar, é perder todo o direito que o cidadão têm de cobrar e reclamar. Saber quem estamos empregando é essencial. Somos empregadores daqueles que nos roubam. Cabe a nós lembrar de quem devemos exigir respeito e honestidade.
Perder a fé na humanidade talvez seja como perder a fé em si mesmo. De fato todos somos sujeitos ao erro, proposital ou não, todavia também acredito que todos são passíveis de uma imensa capacidade de regeneração, de união e desse espírito humanitário que nos move em direção à solidariedade.
Não subestimem o poder da voz, do protesto. Não tem porque enfeitar a vida para que pareça bela aos olhos, fingir que não tem ninguém sofrendo à nossa volta. É necessária a construção dessa beleza, para que seja real e palpável.

Música que provavelmente o prefeito do Rio nunca ouviu (se ouviu ignorou ou não entendeu).


Favela Amarela
Autores: Jota Júnior e Oldemar Magalhães
Favela amarela
Ironia da vida
Pintem a favela

Façam aquarela
Da miséria colorida
Favela amarela

Favela amarela
Favela amarela

Trecho de Periferia é Periferia - Racionais Mc's

"...O sistema manipula sem ninguém saber
A lavagem cerebral te fez esquecer que andar com as próprias pernas não é difícil
Mais fácil se entregar, se omitir
Nas ruas áridas da selva
Eu já vi lágrimas demais, o bastante pra um filme de guerra

Aqui a visão já não é tão bela...
Não existe outro lugar...
Periferia...Gente pobre..."



Vídeo do epsódio dos simpsons no Brasil.
A visão é exagerada? É uma forma de desrespeito ou protesto?
Humor negro!
Indico o vídeo porque achei interessante uma fala da Lisa:
"Mãe essas são as favelas! O governo pintou elas de cores vivas só para que os turistas não ficassem ofendidos."
Me pergunto de novo. Será tão deturpada assim a visão que eles têm no exterior, do que acontece aqui?




Em tempo, recomendo:

Texto
qui, 22/04/10
por marcia.tiburi |
Como a minha caixa de emails já lotou de tantas contestações e aprovações sobre meu posicionamento hoje no Saia Justa quanto à questão da Pichação, decidi postar aqui um artigo que publiquei na Cult no ano passado sobre o meu ponto de vista. Para que o debate continue com vigor. Estamos precisando.
Pensamento PiXação
Para questionar a estética da fachada
A revolta geral da sociedade contemporânea contra a pichação se ampara na hipótese de seu caráter violento. Usarei a expressão pixação, com X, para tentar tocar no X da questão. A estética da brancura ou do liso dos muros, hegemônica em uma sociedade que preserva o ideal da limpeza estética, dificulta outras leituras do fenômeno da pixação. O excessivo amor pela lisura dos muros, a sacralização que faz da pixação demônio, revela enquanto esconde uma estética da fachada.
Toda estética inclui uma ética, assim a da fachada. Fachada é aquilo que mostra uma habitação por fora; pode tanto dar seqüência ao que há na interioridade, quanto ser dela desconexo. É da fachada que se baste por si mesma à medida que lhe é próprio ser suficiente aos olhos. A estética da fachada que defende o muro branco é a mesma que sustenta a plastificação dos rostos, a ostentação dos luxos no “aparecimento geral” da cultura espetacular, no histérico “dar-se a ver” que produz efeitos catastróficos em uma sociedade inconsciente de seus próprios processos.
Nesta São Paulo do começo de século 21 não é permitido cobrir “fachadas” com propagandas e outdoors. A proibição, ainda que democrática, produz um novo efeito de observação da cidade. Tornou-se visível o que se ocultava por trás do “embelezamento” capcioso sobre um outro cenário. A obrigação do padrão do liso é efeito da democracia que, no entanto, flerta com sua manutenção autoritária. É o desejo governamental da neutralidade e da objetividade no espaço público o que deve servir de cenário à vida na cidade. Governar é no Brasil a habilidade de comandar a fachada que na administração paulistana sai do símbolo para entrar na prática mais imediata do cotidiano. A vontade de fachada é, afinal, uma vontade de poder compartilhada por toda a cultura em todos os seus níveis.
A pixação é o contrário do outdoor, ainda que compartilhe com ele a proibição de aparecer no cenário urbano comprometido pelo governo com uma neutralidade que serve à mesma ocultação de carroceiros e outros excluídos. Ampara-se no olhar burguês cego para mendigos e crianças abandonadas nas ruas. Enquanto o outdoor pode se sustentar no pagamento das taxas que o permitem, a pixação não alcança nenhuma autorização, ela está fora das relações de produção. O que o outdoor escondia era muitas vezes a própria pixação, enquanto a pixação não esconde nada, ela é o que se mostra quando ninguém quer ver sendo meramente compreendida como “ofensa” ao muro branco. Anti-capitalista, a pixação não se insere em nenhuma lógica produtiva, ela é irrupção de algo que não pode ser dito. Sem pagar taxas, o pichador exercerá uma espécie de lógica da denúncia. Mas quem poderá perceber?
Não é possível negar o direito ao muro branco ou liso em uma sociedade democrática, na qual está sempre em jogo a convivência das diferenças. O direito ao muro branco é efeito da democracia. Mas a questão é bem mais séria do que a sustentação de uma aparência ou de um padrão do gosto. A pixação é também um efeito da democracia, mas apenas no momento à ela inerente em que ela nega a si mesma. Ela é efeito do mutismo nascido no cerne da democracia e por ela negado ao fingir a inexistência de combates intestinos e velados. A pixação é, neste sentido, a assinatura compulsiva de um direito à cidade. Um abaixo-assinado, às vezes surdo, às vezes cego, pleno de erros, analfabeto, precário em sua retórica, mas que, em sua forma e conteúdo, sinaliza um retrato em negativo da verdade quanto ao espaço – e nosso modo de percebê-lo – nas sociedades urbanas. Espaço atravessado, estraçalhado, pela exclusão social.
A pixação é uma gramática que requer a compreensão da brancura dos muros. O gesto de escrever só pode ser compreendido tendo em vista que todo signo, letra, palavra, investe-se contra ou a favor de um branco pressuposto no papel. O grau zero da literatura é esta luta com o branco. A escrita é combate contra o branco, negação do alvor fanático, como o pensamento é sempre oposição e negação do que se dispõe como evidente, convencional, pressuposto. Por outro lado, a escrita é abertura e dissecação do branco, lapidação do branco pelo esforço da pedra, mas nunca sua confirmação, nunca é a ação da borracha, do apagamento, da camada de tinta que alisará o passado, o que desagrada ver. Sua lógica é a do inconformismo infinito. Imagine-se uma sociedade em que o papel não fosse feito para a escrita, em que as superfícies brancas de celulose não sustentassem idéias, comunicação, expressão, afetos, anseios, angústias. Imagine-se uma sociedade em branco e começar-se-á a entender porque a pixação nas grandes cidades é bem mais do que um ato vândalo que, para além de ser uma forma de violência, define a cidade como um grande livro escrito em linguagem cifrada. O pichador é o mais ousado escritor de todos os tempos. Diante do pichador todo escritor é ingênuo. Diante da pixação a literatura é lixo.
A Cidade como Mídia
Uma leitura da pixação que veja nela a mera ofensa ao branco perderá de vista a negação filosófica do branco que é exercida pela pixação. A pixação eleva o muro a campo de experiência, faz dele algo mais do que parede separadora de territórios. Mais que propriedade invadida é a própria questão da propriedade quanto ao que se vê que é posta em xeque.
A pixação é o grito impresso nos muros. Ação afetivo-reflexiva em uma sociedade violenta que não aceita a violência que advém de um estado de violência. Ela é a marca anti-espetacular, o furo no padrão da falsidade estética que estrutura a cidade. É a irrupção do insuportável à leitura e que exige leitura para a qual a tão assustada quanto autoritária sociedade civil é analfabeta. E politicamente analfabeta.
Em vez do gesto auto-contente, o que a pixação revela é a irrupção de uma lírica anormal. A Internet com seus blogs (horrendos, bonitos, mais bem feitos ou mais mau-humorados) é o seu análogo perfeito. A pixação revela o desejo da publicação que manifesta a cidade como uma grande mídia em que a edição se dá como transgressão e reedição onde o pichador é o único a buscar, para além das meras possibilidades de informar ou comunicar, a verdade atual da poesia, aquela que revela a destruição da beleza, o espasmo, a irregularidade, a afronta, que não foi promovida pela pixação, mas que ela dá a ver. Em sua existência convulsa a pixação é a única lírica que nos resta.