quinta-feira, 27 de maio de 2010

desCONSTRUINDO o filme DEGUSTAndo a poesia

O cinema é um eterno exercício do olhar, não que seja necessário você achar que tudo que é subjetivo é arte, nem que tudo tem que ser nos padrões plásticos da simetria. Cinema pede um olhar sempre aberto e livre, onde você se permite ser levado por um conjunto de sentidos e sentimentos que lhe são passados por algo que se aproxime e te toque, mesmo sendo algo tão distante da realidade (ou não, afinal algo pode tocar por ser bem próximo).
Não sou crítica de cinema, não sou artista, não sou poeta nem escritora. Acho que o bom da liberdade de expressão é sempre poder contar com a própria forma de interpretar e expressar como você vê o mundo.
Sei que gosto de algo que leve e eleve meus sentidos, de forma que me deixe bem longe de mim por algum tempo, mesmo que mínimo. Algo que me faça abrir novas janelas ou enxergar novos horizontes quando as luzes se acendem, algo que me mude, de forma boa ou ruim, que não me permita sair indiferente.Cinema pra mim é isso entre um mundo de coisas que eu não saberia explicar apenas pela escrita...

Porque toda essa introdução? Pra falar do filme que vi hoje, que pode gerar reações paradoxais.
Então um pequeno resumo das impressões passadas, quem quiser ou puder, assista e depois me diga com que olhos piscou após os créditos.






"Viajo porque preciso, volto porque te amo"
Deve ser porque a poesia é para todos. Se esvai de qualquer um, em qualquer situação. Mas a poesia é para poucos, a superfície é dura e as imagens desfocadas, não penetra qualquer um, nem é facilmente permeável, podendo assim dar em qualquer lugar.
Contraditóriamente belo, estranho aos olhos as lembranças de um coração. Lugar incomum em meio à aleatoriedade que acalma, alivia, distrai do olhar pra dentro, da incapacidade de encarar câmera, "que agonia" "Viajo porque preciso, não volto porque te amo".
Ciclos de estradas que mais parecem círculos de análises e aforismos "sempre iguais" alternando somente nas emoções que vagam entre a vontade de voltar e não ter caminho pra conseguir. Silêncio ensurdecedor, vazio que oprime. Que lugar melhor há para se esconder do que na multidão??
O ridículo distrai, mas de tão ridículo, atrai uma atenção desesperada de quem não tem pra onde se voltar. O bizarro que faz rir, alimenta e sacia a vontade de "uma vida de lazer" insustentável, mesmo que por pouco tempo.
Pé na estrada e uma câmera que muitos se enganam ao pensar que está em primeira pessoa. Quem filma não são os olhos, mas o pensamento que vai longe, o alter ego com quem ele dialoga em suas reflexões, quando o ridículo passa de fora para dentro e deixa de ser cômico para ser trágico. Quando isso acontece, quando ele cansa, tudo vira bobagem e as flores de plástico com gotas de orvalho artificial, representam o quanto é falso o que remói, a negação. Assim sendo falso, não existe. Ninguém precisa lidar ou encarar o que não é real, as flores são distração, escape.  
Vôa na insignificância da pipoca que estoura, do artesanato que relaxa, no sorriso tímido banguela, no mar que não existe.
É tudo repetição da mesma fuga comum, de evitar a dor até chegar no litoral, até que chegue o "final" e se perceba que já não pesa tanto o motivo inicial de sua viagem assim encerrando um percurso e iniciando uma jornada para encontrar uma nova rotina pra conviver consigo mesmo.
Por isso poesia é tudo e qualquer coisa, mesmo que seja nada, pois é a construção do desconjuntado, desconstruído, descontinuado e todos os DES...
Estranho às margens, intrínseco, profundamente tocante. Pensando assim tudo que toca, mesmo que oposto, pode virar algo belo pra quem está disposto a mergulhar em águas profundas.

O filme? Pra mim é pura poesia...







''O cinema é a verdadeira linguagem poética'' Bernardo Bertolucci

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Incoerente mudança

Oratio vultus animi est          x          Res, non verba
Evito as expectativas para sempre me dar a oportunidade de ficar surpresa, mas também não nego que tenha um inconsciente objetivo de driblar o logro inerente de minhas consequências.
Que seja parda essa semana, pra que o escuro não me dê a agonia de estar cega e que a luz intensa não me imponham vertigem e dor de cabeça.
Que seja ao som de Bach, para não ter que lidar com ensurdecedoras batidas de baquetas, nem com o silêncio inquietando minhas pernas.
E assim, que no dia ou na noite, se faça o sereno, me transformando num corpo pleno, nem menos nem demais, completo e inteiro sem nenhuma parte deixada para trás.
Faça do desejo gelado, suor derramado, transbordado escorrendo até a superfície lisa, que entre os dedos será enxugado.
Nem menta ou pimenta, só o gosto vazio, refrescante e ardido da origem de teus verbos não palavreados e suas histórias não proseadas que se libertam em textos não lidos.
NÃO LI, NÃO RESISTI, RELI E RELI...
Escritos reescritos, subscritos e descritos como se tivessem sido proferidos por mim, encaixando perfeitamente como se fosse mera extensão de minha mente.
Invasão de privacidade, altera minha identidade, transformando-me num pedaço de conto dissertado, artigo rebuscado, que eu não deveria ter lido, fazendo dos falsos encontros, mero acaso, da alma vazia, que é âmago de todas as angústias e sustento de sua poesia.
Por isso hoje quero passar bege, fora de minha natureza, imersa em minha essência mais amena.
SUBENTENDIDO
Mero pergaminho, deixo de lado todo nanquim ávido pra manchar futuros alvos, cuidando pra não derrubar o que restou no tinteiro.
SE ALGO RESTOU...
Desenrolada de forma efêmera, supostamente estirada, pronta pra ser descrita em garranchos apressados, cursivos e itálicos, delineada entre traços agudos e curvilíneos, ainda que de forma ultrapassada, num saboroso devaneio, outro jeito ardil de fabricar uma nova idealidade. Mesmo que breve, pedi um intervalo, voltando no compasso.
Posso viver nas palavras, na minha verdade ??????
Mas minha verdade muda mais que minhas palavras!!!!
Será um círculo perfeito e interminável a repetição dos atos ??????

Assim me transformo no escrito e logo lido me transforma
Não há outra forma de seguir a não ser sempre alterando-me de todas as formas